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André Rocha

Juventude Utópica


"À juventude que carrega sobre os ombros o peso da incógnita sobre o verdadeiro objetivo da vida."

juventudeutopica.jpg

"A juventude é um leão de asas que voa, em vão, sobre os homens irradiando sabedoria! Onde já se viu, voar urrando em sua loucura enquanto todos os animais rastejam, como vermes, em silêncio?"

PRÓLOGO
( Por Sebastião Bemfica Milagre )

Sempre que desponta um novo dia, há uma esperança. A luz desce dos montes e vai atingindo as grotas mais inóspitas. De repente, tudo é dia, calor, vida, dinamismo. Também quando um poeta desponta do inédito, há uma esperança. É o caso de André Rocha, que está sendo impresso, pela primeira vez, em livro. Só que, aqui, não se configura mais o sentido de esperança, porque o autor demonstra, em seu trabalho poético, ser possuidor do instrumental que define o começo de uma obra destinada a se concretizar através do tempo. Antenas para receber o recado poético, agudo veio de prospecção dos temas, auto-crítica, contenção do supérfluo (ainda que se extravase no momento necessário), alto sentimento do humano, garra e nada de receios.
Estou me lembrando de ter lido sobre Augusto dos Anjos, que, vindo da Paraíba, rodava pelas ruas do Rio de Janeiro, sobraçando a preciosa carga dos originais do EU, à procura de editor. O primeiro livro é sempre um sonho, e disso não conseguiu André Rocha safar-se, à partir do título designativo de sua (e de outrem) juventude . Utopia é o país do Sonho, utópico é o irrealizável. Mas isso é natural acontecer, porque o jovem, por muito à frente que se encontre, suspeita não haver lugar para ele, principalmente no seio de escritores. Suspeita apenas, porque, na verdade, não há autor, já por vezes editado, que não tenha sido iniciante.
Acho muito importante quando um moço teima em publicar suas obras. Dou-lhe os parabéns. E, de minha parte, como alguém que, há anos, vem se dedicando à literatura em Divinópolis, convido André Rocha para sentar-se à mesa da poesia, abrir sua linguagem e assumir o cargo que lhe cabe neste momento histórico em que, como nunca, está sendo valorizado (não no sentido monetário) o artesanato do artista-escritor.
Não vou me alongar no vão trabalho que seria o de esmiuçar os poemas de Juventude Utópica; deixo este prazer ao próprio leitor que, a cada página, poderá tirar a mensagem que souber encontrar no subjetivismo dos textos. O autor, ou eu, diante de qualquer interrogativa do leitor de repetir, tão somente, a atitude de Beethoven que, quando interpelado, por uma ouvinte, a respeito do que significava aquela sonata, sentou-se, mudo, de novo, ao piano, e reexecutou a obra.

Divinópolis , outubro de 1986
Sebastião Bemfica Milagre


Para Nietzsche:

O maior dos meus elementos
É ser um degrau...
Muitos humanos já me galgaram, porém,
Conservo-me superior por fazer
Parte da escada das ascensões.


ÍNDICE

TESES
IMPULSO
O MENINO
MORADORES DO INFERNO
LUZ
PALAVRAS
IRA
TRÊS
ASTRO
A MANHÃ
FAVELA
PENSAMENTO ALADO
MISSIVA À MULHER AMADA I
RODA
VOLTA
A PORTA
MOÇO ENCARCERADO
LAMENTO
MERETRIZ
SÚPLICA
FLOR DE OUTONO
QUERER
C DE CAIXA
MARGARIDA
SONHO DOS ANJOS
PAISAGEM
COBRANÇA
SAUDADE
MISSIVA À MULHER AMADA II
VIAGEM
CORPO I (O INÍCIO)
CORPO II (O MEIO)
CORPO III (O FIM)
IMAGEM
PREÇO DA SALVAÇÃO
DONO DO ACONTECER
ALÇAPÃO
TEATRAL
ANIMAL
CARROSSEL
JUVENTUDE UTÓPICA (Sonetos I a X)



TESES

Seu grande sonho
é ser poeta, é ser cantor
ter a mulher amada
e filhos filósofos.
É ser filósofo
é ser amado
e ter filhos poetas.
É ter filhos da mulher amada,
filósofos, poetas e cantores.
Seu coração é dono de muita dor
não tem inspiração
nem violão, é estéril
e não tem amor.


IMPULSO

Antes furta o olhar da nudez descortinado
Fazendo fluir, sem controle, a libido latente
Perdendo a razão sobre aquilo que sente
O pudor, pelo impulso, se faz sepultado

Poderia morrer sobre um útero alugado
E abraçar o prazer no mais torpe ambiente
Aquele que o homem apedreja normalmente
Depois de amar e de tudo ter gozado

Fujo contrariado e prazeroso desse fim horrível
Em que o amor fenece e a sodomia expande
Onde a mulher caiu e se apodrece inteira

Mais depressiva, morto o ato, do que aprazível
Ao último cliente presenteara com úlcera grande
Que leva para o leito de morte a doença inteira


O MENINO

A lágrima caía no prato de louça
O sal no feijão do meio-dia
Sentado à mesa da incompreensão
após as lições matinais
Os dedos na boca
Os olhos vermelhos
Talheres refletiam a imagem
distorcida da mãe que dizia:
Homem não chora
E o soluço do menino expandia-se
pela casa vazia
Inútil procura da família morta
Fitava a parede branca,
revivendo cada momento tedioso
O medo dos fantasmas da rua
que atacam as crianças à luz do sol
E dormem em seus pensamentos noturnos
O medo dos fantasmas dos pais
Que os acompanharão durante o dia
Serão seus fiéis guardiões
à porta da noite
E os atormentarão até o final
das pulsações
Pressionava os lábios e mordia
as unhas inocentes
O volume do choro retratava o jornal
cobrindo o rosto do pai
E nele se lia - cama, comida e dinheiro
O menino ergueu os talheres sobre a mesa farta
Passou a língua nos lábios
E novamente comeu as próprias lágrimas.


MORADORES DO INFERNO

Oh! Senhor dos holocaustos,
atendeste aos reclamos de minhalma
erguendo-a para a vida celeste
Toda sua veste fora ungida com óleo santo
O corpo embalsamado para o sepulcro divino
Quanta carne balouçava entre as colunas
de fogo do templo queimando cada gota
de sangue em sacrifício ao deus do desespero
Tranças de meus cabelos pendentes no altar
à espera do devorador - O leão que ruge
e tem as asas como chumbo -
Grande é a infelicidade do mal alado
suas próprias asas o impedem de voar
Lutavam o bem e o mal sob meus pés dormentes
Ambas as espadas erguiam a vitória
Ambas sucumbiam e, após os gemidos, emergiam
da terra como se acabassem de nascer
Mais vigorosas e bramando com intensidade maior
Ao redor do lago de enxofre
meus anseios travavam suas batalhas
e a esperança lançava grandes jarros
de água límpida para aplacar o fogo
e, inutilmente, saciar a sede inacabável
dos moradores do inferno.


LUZ

Emane luz...
Sacie minha mente superior de fé e esperança
enquanto o ceticismo e a descrença esvoaçam
por entre a escuridão de meu EU interior.
Contorne-o de um esplendor tão nobre,
tal qual o da aura de Jesus, o intrépido
e sábio filho de Deus.
As trevas de meu coração adormeceram
no divã da solidão.
E a solidão canta e seus ouvidos as canções
que a alegria e a esperança entoariam
ante a face do abismo.
Seu eco vai roçando as montanhas, mas não
as consegue florir; vai aniquilando o
silêncio e não o consegue embalar; vai
subindo ao céu, mas não o consegue tocar.

Emane luz...
Quero ter o poder de conceder o perdão
a meus assassinos.
E quando me cobrirem de flores sem caules,
indagar sobre o que é mais digno:
- Coroa de falsa flores, ou coroa de
venenos espinhosos?
Quando a minha cruz se tornar insustentável,
quero jogá-la aos céus, para que seu vôo
irradie força aos decrépitos, liberdade aos
encarcerados e vigor às almas sonolentas.
Quero sentir no fundo de minha alma
a presença de uma energia tão vital e
criativa quanto a que habita nos seres
verdadeiramente iluminados.

Emane luz...
Ilumine o caminho para a chave desta cela
sem grades que não consigo romper
por ser jovem e ser homem, um eterno sonhador
e uma simples poeira nas mãos de Deus.
Meus pés estão enterrados na argila desta
terra incerta.
Minhas mãos livres, porém rondadas pelos
preconceitos tradicionais.
Meus ideais em luta constante
contra as leis injustas.

PALAVRAS

Palavras são correntes
que enforcam as mentes
dos agraciados

Das amarras terrenas
aplaudimos as cenas
de livros queimados

Letras que voam
em conjunto apregoam
somente enfados

Cansa-me o tempo
rouba-me o tempo
com tudo falado

Os ouvidos tranco
em silêncio franco
inseguro cadeado

O olho furo
temo o escuro
nada é solucionado

Restam-me os sentidos
que andam falidos
quando argumentados

Por falta de uso
ou constante abuso
estão parados

A palavra ignoram
ídolos adoram
e são condenados

Meu tempo é curto
e a vida furto
dos iluminados

A própria sede
matando a sede
em suco envenenado

E o espírito acorda
não mais concorda
em estar acorrentado


IRA

Antes que minha ira, minha paz destrua
Rasgando ternos trapos sobre o sossego
Fechando calmas portas em que chego
Bradam peitos mortos, secos, pela rua

Antes da queda cálida do aconchego
Na estéril terra o mal construa
Do vento roube e espalhe prole sua
A sementeira lavrada a seu emprego

Mas, ancorando braço forte ao sacrifício
Do sangue quente, a força rompe a grade
Erguendo bandeiras castas contra o malefício

Porque o olho mentiroso espelha maldade
Imagem bela, sinistra, casca e artifício
Refletida na água vulcânica da verdade


TRÊS

Três vezes bati à tua porta e ela
se abriu livre de insegurança
Entrei ainda sem saber o que queria
e me perdi no labirinto de teu corpo
Porém minha alma abraçava com força teu
falso espírito em festa
Três vezes cantei a música que teus
ouvidos não queriam ouvir e no entanto
acolheu-a perante o medo
Transformou-a em esperança até que
cessasse a melodia em minha língua
Três vezes ergui a espada do egoísmo
repulsivo e lancei-a sobre o teu
coração cansado e triste
Jorraram flores cobertas de lama e um
lírio tímido em minhas mãos
Eu os cobri com terra fértil, mas
uma enxurrada de preconceitos os devastaram
Três vezes caminhamos entre correntes de ciúme
amarradas em ventos passados
Eles ainda movimentam meus cabelos
como se os arrancasse sem que conseguisse
transformá-los em brisa
Três vezes feri tua alma com ferro em brasa...
Foi o fogo da ignorância
Minha loucura voltou de mãos dadas
com a sabedoria e bradou:
- Malditos sejam os precursores da dor
no peito das mulheres
Três vezes segui a mesma palavra
sabendo que era covarde e errônea
E só agora vi que é necessário secar
a procura e caminhar sozinho.


ASTRO

Longe brilha a luz do sol roubada
Do astro impotente em se iluminar
Reflete hoje a claridade passada

O ontem ilumina o céu do futuro
Anos antigos traz a luz presente
Passado que nos livra do escuro

No mesmo instante, a cada dia
O clarão invade suas montanhas
E daqui, pela noite, criamos nostalgia

Assim como chega, afasta então
E o astro incansável segue sua rota
Sem recompensa, sem adoração

Ponto branco a noite cortando
Solitário caminho de astro tão belo
É preciso sensibilidade para vê-lo passando


A MANHÃ

TRIMMMMMM... CLIC! SEIS HORAS
Prolongava a noite o cobertor rasgado
Sufocava-me entre os lençóis lilazes
Exalando o odor das secreções noturnas
Ruminando a saliva armazenada para matar a sede do sono
Era a hora da preguiça...
Mais uma vez era manhã e tudo realmente oprimia
O cheiro almiscarado da cama suja
e a queimadura costumeira no estômago
O barulho dos carros, o apito da fábrica,
o cheiro de café do vizinho
Terminou o feriado da guerra
A pobreza nos convida à batalha pelo patriotismo estomacal
Somente os generais dormem até o meio-dia
Piscando secamente meus olhos acordaram
e a luz varreu a sombra de meus sonhos
Sonhava com amigos antigos; mulheres antigas e exploradas
Beijos e abraços antigos; antigas honrarias e aplausos
No museu de meus sonhos o ego é feliz
Ontem mil braços erguiam-me e estava de mãos vazias
Fiquei meio triste quando estava só,
ouvindo o eco das palmas e o murmurar das línguas
Afinal, o eco é coisa que bate, rebate e machuca
um pouco aos ouvidos sensíveis
É essa lembrança enganando o presente
Dez horas estive deitado e vivendo aflito
Sinto-me como se correra toda a noite
atrás de um sonho fugitivo; uma idéia perdida
no subconsciente procurando abrigo sob a razão
A cabeça esparramada no travesseiro nada vale numa casa vazia
Enquanto alguém não apontar seu preço
é impossível que se dê um valor
Meu corpo tomara a forma do colchão
e nem rolar queria
Deixava o único movimento para as pálpebras
cortinando e descortinando a solidão
O silêncio me faz tão só que canto-lhe minhas canções
Ingrato que é, nunca me aplaudira
Escuta-me com aquela atenção fúnebre
Sonhei revoltado com o ontem e o hoje, este colecionador,
fez-me só
Sonhei esperançoso com a certeza futura
e o hoje, este caótico, a fez pó
Basta de pensamentos inertes!?
Lancei os lençóis no ar e abandonei a cama
Tão grande para um pequenino como eu
Se ao menos meus ursinhos estivessem aqui...
Segunda-feira. É segunda-feira?
As prostitutas voltam para casa
Preciso ir ao banheiro e rir para o espelho
Recitar o último poema decorado e entoar as vogais
Inspirar, expirar, inspirar... A, É, Ó, Ê, I, Ô, U
Inspirar, expirar, inspirar... A, É, Ó, Ê, I, Ô, U
É preciso cortar vícios e se educar novamente
O mundo não me enxerga bem...
Ó face sombria que deflora o dia e definha-se no abandono,
Cubra-se com a tua melhor máscara em que todos reconheçam
Meu nome ao mínimo gesto de hipocrisia.
Lavo-me todo e visto roupa nova
Toda a carcaça pesada do sono fugira pelo ralo do banheiro
Vejo-me nu para o dia e disposto a ver algo diferente
Quem sabe a volta do Messias ou a Terceira Guerra Mundial?
Ah, essa monotonia do planeta é que me ataca o coração
Ligo o rádio em alto volume e a inevitável televisão
Sento-me a ler o jornal sustentando infinitas letras inúteis
Minha solidão encheu-se de barulho e imagens de desconhecidos
Conturbei-me e passei a andar pela casa invadida
As mãos espalmadas na nuca e os suspiros indignados
Olhei para o relógio; sete horas
Segunda-feira. É segunda-feira?
Fui chorar na cama e adormeci.


FAVELA

De trapos e negros cotovelos
repiso a calçada fétida do tempo
contando os tijolos em muralhas
erguidas pela pobreza dos ricos
Amassando o barro que esculpirá
os barracos dos pobres insatisfeitos
Ando esquecido de mim
desde que olhei-me da lua
Um cisco no corpo de deus chorava
pelas ruas procurando pão
Uma máscara de tormento querendo um colo
onde ancorar o desalento...
Sou as fezes desprezadas pelo verme
no crânio dos mortos
Sou uma favela ambulante

PENSAMENTO ALADO

Pensamento alado_____________________________Cai na enseada
foge do enfado________________________________de asa cansada
e da solidão__________________________________arrasta no chão

Da mente cansada_____________________________Reclama ajuda
da pessoa enganada____________________________que o tempo o acuda
pelo seu irmão________________________________da triste ocasião

Liberta-se ao léu______________________________Sente o tormento
rasgando o negro véu__________________________o caos do momento
da incompreensão_____________________________vive a perdição

Do corpo fraco sai_____________________________Vem a chuva mansa
abrindo caminho vai____________________________lava sua trança
para a salvação________________________________com lama e sabão

Voa aturdido__________________________________Seca-lhe a tez
procurando abrigo______________________________sentindo a robustez
noutro coração_________________________________ambas sumirão

Que seja bonito________________________________Dá-lhe limpa veste
um pouco aflito________________________________a seu favor investe
pela paixão____________________________________retirando a podridão

Que tenha temor________________________________Vem a tempestade
transborde de amor______________________________trazendo a verdade
viva em oração_________________________________na palma da mão

Seu destino cruel_______________________________Arrancando raízes
semelhante ao fel_______________________________criando matizes
dá-lhe tribulação_______________________________na devastação

Correndo do mal________________________________Que anseia um céu
querendo do real________________________________coberto de mel
a doce visão____________________________________no trono do zangão

Pensamento alado_______________________________Um templo incompleto
está estampado_________________________________de homem repleto
na face de Adão________________________________sem consagração

O fogo no jardim_______________________________O ódio do pecado
Eva era assim__________________________________e o erro perdoado
na resolução___________________________________purifica o coração

O fruto proibido________________________________O beijo mal dado
suco da libido__________________________________de tudo escarrado
exoneração____________________________________é dado na mão

A face escondida________________________________A língua que fala
atrás da falida___________________________________o veneno embala
força do perdão__________________________________em composição

A hora do medo_________________________________E lambe a saliva
trouxe mais cedo________________________________constrói deusa altiva
a condenação___________________________________da destruição

O medo da hora__________________________________Pecado falado
trouxe sem demora_______________________________Satã avisado
a crucificação___________________________________da destruição

E cada sentimento________________________________Cuidado esquecido
que não tem fundamento___________________________encontro perdido
preocupa o cristão________________________________com a comunhão

Erguendo valores_________________________________Águas salgadas
matando senhores_________________________________fazem estagnadas
que não servirão__________________________________fontes de depressão

A força do vento__________________________________O choro no fim
derruba o convento________________________________que faz o assim
da maldição______________________________________sem afetação

Trazendo à tona___________________________________Ainda mordo a serpente
os seios da dona___________________________________com ira no dente
do leite são_______________________________________e faca na mão

Nas ruas jorrando__________________________________Ainda volto ao ventre
ao sedento engasgando______________________________procurando-me entre
garganta em erupção________________________________a escuridão

Engole o veneno___________________________________Encontrarei a cabeça
bálsamo ameno____________________________________antes que me esqueça
produz corrosão____________________________________na imaginação

Das duas que lavam_________________________________De que adianta Maria
prefere que encharcam_______________________________na cama vazia
seu rude pão_______________________________________se amo a Conceição

A crosta sangrenta__________________________________O sexo não adianta
a terra alimenta_____________________________________se o amor não imanta
choros passarão____________________________________como condição

Lágrimas derramadas_______________________________O depois é enfadonho
longe das espadas__________________________________acorda o sonho
que nos matarão___________________________________da paixão

Pensamento alado__________________________________O câncer mental
está acorrentado____________________________________traz ignorância tal
na alucinação______________________________________como alienação

Crescendo a ferida__________________________________O morto-vivo
na mente doída_____________________________________ainda ativo
corrói a razão_______________________________________pede perdão

Segurando a cabeça__________________________________Setenta vezes sete
antes que esqueça___________________________________aquele que promete
o corpo no chão_____________________________________esconde-lhe a mão

Viver sem sentido___________________________________O espírito enternece
destino contorcido___________________________________e o cérebro esmorece
resposta de pagão____________________________________seca a emoção

Miolo inválido______________________________________Toda visão embaraça
sangue cálido_______________________________________carcomida pela traça
morrerão___________________________________________miopia da razão

Restará o que empresto_______________________________O desejo da volta
todo meu resto______________________________________produz a revolta
me volta à mão______________________________________na força do não

A matéria restará_____________________________________Sendo do mal polida
a alma subirá________________________________________a mente ferida
consolação__________________________________________volta em canção

Agora chegou o fim_________________________________Pensamento alado
a morte diz sim_____________________________________retorna cansado
iniciação__________________________________________à casa da razão


MISSIVA À MULHER AMADA I

Sou um louco assexuado e panteísta que divaga à sombra das premissas ocultas.
Esse homem que se move dizendo ser eu, é apenas uma semente crescida que Deus lançou para morada de seus anseios.
Se ambicionas transformar teu vero amor em meu esteio, mulher, traze tuas ambições místicas para que juntos lutemos pela posse dos elementos da sublimidade.
Pisaremos em todos os grãos da praia com um bastão a remover as pedras que nos interpelarem com mau agouro.
Ouçamos os pequenos grãos e desprezemos as grandes e arrogantes pedras; deixemo-las impregnadas pela paixão ao poder, que não será o alvo da flecha de nossos desejos.
É mister que o silêncio reine enquanto sentimos a força incólume que liga os ouvidos dos homens às cordas vocais do universo.
Ouçamos a música da natureza e deixemos que nossas almas dancem com os espíritos da terra.
Quem entende a linguagem de música, entende também a linguagem da natureza e Deus fala por ela.
O vento que toca suavemente as folhas de uma árvore; assim como os furacões que devastam as vilas, trazem consigo a Sua mensagem. Será uma descoberta progressiva e um crescimento compensador.
A vida eterna pousará sobre nossas cabeças.
Para nós as nuvens se desfarão, os homens comuns se emudecerão, o mar se tornará espuma e a praia um tapete celeste.
Nossas almas encontrarão o amor maior...
E o que é o amor vulgar senão uma vaga e inexplicável carência mundana?
Tudo nos será eterno; tu, a mulher perfeita, e eu, o homem perfeito, viveremos o mais excelso e verdadeiro dos amores que rondam como serpentes venenosas as tristezas e alegrias dos homens.
E o meu simplismo hiperbólico será mais que um pensamento perdido no tempo.


RODA

Gira, gira, gira...
Pára
Olha para o céu
Grita:
- A bomba!
Chora

Gira, gira, gira...
Pára
Olha para o céu
Grita:
- A bom... BUM!


VOLTA

Ela voltou
de braços abertos
de flores na mão
sorriso comprado
carinhos à prestação
A mesma conversa
sobre o coração

Ela gritou
meu nome ao vento
morreu no momento
sem minha audição
Por todo lamento
caiu em perdição
Maria Madalena
da nova geração

Ela chorou
todas as lágrimas
secas de arrependimento
por todo tormento
que traz solidão
Pedira meu leito
cedera seu peito
a qualquer cidadão

Ela cantou
a música triste
composta no cemitério
acorde tão sério
só pode ferir
Enterra seus mortos
sentimentos tortos
nasceu pra cair

Ela caiu
de cara no chão
lambeu o esperma
da fúria eterna
impulso à razão
Homem da caverna
arrasta pela perna
terra em polução

Quando partiu
levou minha alegria
jogou-a na estrada
não foi encontrada
perdeu-se em vão
Em toda calçada
procurei-a atada
ao lixo do chão

Ela falava
de coisas malditas
de anjos caídos
meninos sofridos
amores falidos
mulher sem coração
de seios doídos
e calo na mão

Ela viveu
como rainha
ganhando delícias
comprando carícias
pagando com pão
Construiu a malícia
de ser um cordeiro
mais que dragão

Ela voltou
sem a teia
sem garra e veneno
discurso ameno
sobre a paixão
Sozinha passeia
gorda e feia
saiu da prostituição


A PORTA

Conheço, com zelo, o que há de pequeno nos gigantes
E contra tal peso, amarrado à sapiência, é que luto
Sou pequeno em massa, pequeno em sonho, porém bruto
Que guarda entre desejos a fé cega dos infantes

Não quero ter grandes pegadas aniquilando os semelhantes
A tudo que reclama, agride e chora também escuto
Prefiro aquilo que fala alto em todo o silêncio absoluto
De grande só quero o amor no silêncio dos amantes

Em nenhum museu, no futuro, estará minha carcaça
Ostentando em pedestal inútil o tempo que passa
Nenhuma lembrança ou valor terá minha natureza morta

Há nos gigantes um erro que os fazem contentes
Ter carne em abundância, ossos e mentes indigentes
Que aos pequenos se curvam ao passar pela porta


MOÇO ENCARCERADO

O piso de mármore congelava
os ossos daquele corpo faminto
Nas paredes borradas, as inscrições
retratavam maculações escarradas
pelos homens comuns
O lodo e o podre desenhavam
em linhas disformes a face de
mulheres nuas e musas imaginárias
O ar pesado conduzia o
baile das moscas que em círculo
choravam a lavagem sem sangue
Os vermes rastejavam nos cantos escuros
à procura de um estômago perdido
Eram grades enferrujadas,
as portas para o mundo
Assim como são todas as portas do mundo
para o ancião incrédulo
Um único raio de sol cortava
a negritude dos tarugos
enterrados no teto
Deixavam produzir a imagem do corpo
estirado e magros ratos debilitados
Nas mãos do tempo o teto depositou
seu desejo de morte
Pingos e pingos gotejam em ritmos
insatisfeitos com a sina
Concretos seculares se descolam
despedindo de grão em grão dispensado
Assim como a terra se despede
inconformada de cada relva
devorada pelo fogo
Era sempre noite...
E no centro desta sala luxuosa,
dorme o moço encarcerado.


LAMENTO

Aquele antigo espírito de fé se transfigura
Em múltiplos conflitos avassalando a sorte
De temer-me e ao mundo mais que à morte
Sou a mais complicada e neutra criatura

Tenho fome e assim não vivo forte
Para enfrentar, sem medo, esta vida dura
Nenhum remédio existe; nada me cura
Ando perdido até que o tempo me transporte

Minha cor fugiu por não estar comendo
E apesar de tudo, em mim, estar descendo
Não perco esta ilusão e solidão altiva

Estranho-me por ser assim tão humano
Sustentando a idéia de amor profano
De natureza triste e, infelizmente, viva


MERETRIZ

Mulher menina em teu seio o bravo deita
Cedendo e tonto pelo jarro de jasmim
Teu perfume é louco e a imagem bem feita
Mulher bela, quem te fez assim?

Com traços finos de coisa perfeita
Hipnotizando e me tirando o sim
Qualquer coisa doce e prazerosa aceita
Mulher do povo, só és bela para mim

Seus braços amarram o coração em teia
Aranha negra, da sociedade a escória
Por baixo preço nem mesmo passeia

O gozo mata sua beleza em instante
Não se alimenta melhor que capim
Mulher da vida de qualquer amante


SÚPLICA

Aquieta-te violência
Que teu som dói-me o altruísmo ainda nascente
Amordaça o pensamento lírico solto no papel
Querendo rasgar o poema de paz
Tu que és vocábulo austero e rude em lábio infantil
Afasta-te das cirandas e dos parques ocultos dos adultos
Não te dês a conhecer pelas crianças
Apieda-te dos pacifistas que nunca alcançam seu fim
Dançando nas línguas ou enrijecendo os punhos
Desejando sangue ou fabricando bombas
Mesmo que não minha, vejo-te roçando meu caminho
Ostentando riso cínico à porta do cemitério dos santos
Que tua escrita apague-se de minha memória presente e futura
Não mais ataque meus ouvidos e morra nos dicionários antigos
Quero-te palavra esquecida e morta
Violência psicológica - por ignorância e fé
Físico-violência - pelo amor e a moral
Violência espiritual - pela paixão aos milagres
Quisera eu ignorar-te não fosse esta tua
Insistência por crescer e se espalhar
Vejo-te nos jornais e na televisão fazendo teu eco:
- Violência, violência, violência...
Violência na comunicação, informação à cultura de matadouro
Semente que não morre em terreno calcário
Onde se incham os pés dos lavradores sossegados
Onde as tabuletas arriscam honestas:
A mãe que grita_______________________A morte do Papa
O patrão que se irrita___________________A pobreza entendida
A esposa que se nega___________________O pirulito roubado
O marido egoísta______________________O medo da morte
A oração não atendida__________________A saudade do ventre
O silêncio dos santos___________________O amigo sumido
Foste tu, ó violência, que vieste às costas
Do primeiro recado?
Que saístes do esperma de Adão?
Serás tu, ó energia maligna, que apagará
As luzes do mundo?
Infinitas vezes dir-te-ei para entender-te
Dormirei contigo nos lábios recitando:
- Violência, violência, violência...
Chega de sangue pela rua, de armas, de gritos e monstros
Cacetetes erguidos e homens irados
Tua ferida não se cura e entristece-me tua lembrança
Reconcilia-te com a paz, esta tua irmã rebelde,
Que nunca se basta
Ajunta os corpos no campo anunciado o fim da greve
Não mais podes fazer?
Quero esquecer-te apesar de inesquecível
O corte do seio da menina; o hematoma no sexo do garoto
Teu poder machuca-me a quilômetros de distância
Onde andam os cadáveres famintos
Braços, pernas e cabeças espalhadas; Terror incontido
Não tentes erguer meu corpo à primeira luta
E que o último tiro não seja o meu
Nem o único morto a queimar tua bandeira
Ainda voltaremos com o mastro na mão
E clamaremos a ti, ó violência,
Aquieta-se!


FLOR DE OUTONO

Jaz nas veredas da morte a flor que deu
origem a quem me nasceu
Colo de cabeças embriagadas pelo veneno
ronceiro da vida
Mão que alivia as dores do nascer dos galhos
na árvore do crescimento
Caminha rastejando atrás das pegadas profundas
na decrepitude de seus ossos e músculos
No outono que a possui, somente profere
palavras idiotas e já não mais canta, geme bufando
Já não toca, apenas pega tremulando
Já se curvara para a terra em louvor ao Deus
que tanto me proclamava
Não tem mais lágrimas e sorri quando a desgraça
infiltra em seu coração
É uma flor inválida à beira do abismo esperando
alguém que lhe dê o sopro divino
Maldito dono das horas e dos dias que lança
em meu coração a pena pelos seres que se vão
Maldito senhor do tempo que fizeste chegar
o outono de minha avó, que cai de corpo
no sepulcro que ela própria esculpiu.


QUERER

Quero um morto torto numa corda bamba
Fazendo o espetáculo último e primeiro
Quero um morto torto numa corda que não anda
Parada, em equilíbrio, ao aplauso do povo
Quero morrer com meu corpo numa cela de cadeia
Quero ser um louco encarcerado como um canto
que não sai
Quero que a noite não se zangue nem me espante
E os fantasmas me rodeiem
Nunca mais virei aqui no cantil da menina
Eu a tenho como musa
De água ardente é que mata sua sede
e tonteia os mocinhos
Quero um canto morto em minha língua
Quero tudo morto à mesma hora
Quero mais que um sonho mais que a dor
Acalmar os sonhos doídos
Quero um morto torto numa treva que não anda
desviando-se dos raios de luz
Quero tudo leve numa estrada
Quero que se corra, que se mande
e nunca chegar ao destino
Quero a vida longa no meu peito
Quero a juventude bem sensata no meu seio
E fazer o que é certo sem medo
Quero que você não ouça este canto
como homem da rua
Quero que não ande pela rua nua
mas vista-se com a minha roupagem
Quero a noite bem ligeira
Quero num teatro ou numa esquina qualquer
Quero que meu corpo morra numa cela de cadeia
Veja quanta moça perdida na esquina
É a hora de mentira
Se eu as amo, eu me amo muito mais
Quero que a noite venha trazendo a utopia
e tudo seja deleite para a alma
Quero ver meu corpo encarcerado numa cela de cadeia
Quero ser acorrentado em praça pública
e ser chicoteado pelos olhos alheios
Quero morte e quero vida
Quero tudo e quero nada
Assalta-me o querer...
Quero querer saber o que quero


C DE CAIXA

O cadeado se abre calado ao
caos da cachaça
Na cadência caduca do cabaré
Jaz o caixa sifílico caído
com o cacete a caçoar:
Aquela cadela trocou o calor da
cama pelo calafrio do calvário.
Deixou o castelo do capeta cantando
um cachorro canceroso.
Cena na cela, cega cerimônia
Cegonha no cemitério celebra o certo
O cérebro cercado cega-se ao céu
Centro celeste
Cena na cela, cerimônia no cemitério
Cálida cadela
Chamaram o chim do chicote para
a chacina da chama
Chapéu cheio de chulo chamamento
Chaminé do chefe; chupeta na chuva
A chapa chata chorou o chumbo no chão
Cheiro o último chá na chaleira cheia
Cintila no cidadão a cirrose
Clamando cirurgia e um cigarro
Na cintura da cadela a cicatriz
Ciumenta do caixa civilizado
Cismado no cinema encima de
Um cigano; corte ciente
Inconsciente claudicado
Clara! Coloque o colar no colo
do cliente, tenha compaixão
Cobaia sob cobertor, coitado
do cometa colorido da cobiça
Cobre o clero em cima de coca
Coisa coincidente é comer cogumelo
Conclusão, combate a combustão
Cuidado!
Crucificaram a criança cuja crença
Criava cruz de culpa
O crime do crioulo cruel criou cupim
Cultura sem culpa e cor, culta criatura
Cuidado!
Cristão cru cumpre a crise contente
Caíram na cratera carregando curativos
Cura aleijada
Caridade calejada.


MARGARIDA

Amarelaram-se os seios da sede e gula
A tez morena de Margarida anoitece
O deus da vida, surdo, não ouviu minha prece
E podre em terra imóvel esconde sua medula

O coração, antes forte, grita, chora e pula
Negando o fim do hálito e sexo esmorece
Seu corpo agora neutro nunca amanhece
Jaz na tábua do boteco fétida e chula

Meus lábios insensatos almejaram o beijo gelado
Daquela meretriz que me viu crescendo
Deu-me casa, comida, sexo e ordenado

Todo o tempo e prazer dera-me esmigalhado
Olhe para mim, pois estou morrendo
Margarida! Margarida! Seu coração está parado?


SONHO DOS ANJOS

Sonho dos anjos
as almas errantes em nuvens de amor
crescendo a palavra sublime
em lábios mundanos
A conversão do negro pecado
em pureza
Em harpas celestes, os anjos
entoam louvores a Deus
Melodicamente embalsamando
os tímpanos da pureza
Homens louvando, anjos cantando
Lá no céu elevam a vitória
E com asas protetoras
envolve-nos em manto puro
Sonho dos anjos
que de tão sublimes
pousam no colo de Deus


PAISAGEM

Afastei-me de vós como o guerreiro se afasta
do inimigo, sorridente ao vencer a batalha
Aqui no monte, meus amigos, posso enxergar
o desfiladeiro e o abismo na orla da estrada
Durmo em berço puro, como o alimento puro
e a pureza é minha fiel companheira desde que
salvei-a, em prantos, à beira do abismo
Inspiro o néctar das estações e o cantar do galo
ecoa nas montanhas enfileiradas
Fechando o vale encontram-se o círculo arbóreo
e o manto azul
Bem ao longe ofusca o negro brilho da montanha
ardendo entre gemidos enfumaçados
À minha frente exalta-se como um monstro
a montanha mais próxima
A porção gigante abrigando a sombra das nuvens
Daqui vejo a copa das árvores e o barro da
estrada erguerem-se ao sol
E minhas costas queimam-se no aroma
exalado pelo canto dos grilos
Pássaros, borboletas e mosquitos voam
entre as cercas de arame
O estrume fresco das vacas do curral
As formigas enfileiradas marcham seguras
carregando as folhas entre as pedras brancas
que contornam a estrada
Um funil irregular e sedimentado singrando
no peito das montanhas
Aqui no monte o ar é puro e o vento
transporta brisas refrescantes
envergando o caule longo do bambuzal
O silêncio é vero e divino;
É mais fácil encontrar-se com Deus onde
Não há a presença humana
Somente se ouve o ranger oco dos galhos
e a voz dos animais louvando a natureza
A paz aqui me assusta
A verdade e o real assustam
O ver é falho e o sentir enxerga através
do tempo e espaço
Esse manto azul com manchas brancas sobre
as imagens na tela dos sonhos
Esses enormes braços verdes preparados para
esmagarem meus ossos e músculos.
Eu estou no alto e quando olho em redor
sinto-me supremo
Estou protegido, meus amigos, e quando olho
O lodo da cidade, vejo-os engolir essas montanhas
E calarem ao animais para, novamente,
Escravizarem-me na planície.

COBRANÇA

Cansei-me de amigos
Não quero mais tê-los
Procuro inimigos
Para combatê-los

Eles cobram tanto
Que me dá medo
E fazem canto
De meu segredo

Não devo nada
A quem não pedi
Coisa interessada

Quem de graça dá
É inimigo embutido
Que sempre cobra

E cobra tem veneno


SAUDADE

Amar pessoas antigas
que de lembranças doídas
são sádicas precursoras,
é ofício baldado
e mantém os cadáveres vivos
Florear os cemitérios
ou orar caído ao túmulo
é inútil arrependimento
Querer ignorar a morte
faz a vida sem sentido
Amados apodrecidos!
O lembrar esses fantasmas,
nostálgicos cobradores,
que povoam nossos sonhos
à espera de consolo
dá-nos choro azedo
entre o gozo e tristeza indeciso
Não existem lágrimas
que acalentem entes passados
e, no entanto, perante a solidão
passeiam entre nossos olhos
para que não os deixamos fenecer
Apagaríamos suas vidas
se os esquecêssemos
Mas, se os esquecermos,
nossa casa fica vazia
sem as vidas mortas
que alimentamos.


MISSIVA À MULHER AMADA II

Na minha ociosidade sentei-me na calçada
a contemplar a lua que chegava furiosa
pela borrasca caindo sobre a terra.
Eu amo as chuvas e gosto que suas lágrimas
toquem o meu corpo.
Mas, também amo a lua e a borrasca ofusca
o seu brilho.
Ambas, a chuva e a lua são minhas amadas e
vi-te entre elas vagando errante.
Vi-te como a chuva que umedece a minha face
e a liberdade de todas as máscaras.
Vi-te como a lua; eu sei que é bela, mas
durante os temporais vejo-a na penumbra.


VIAGEM

Os troncos corriam pela janela
Infinitavam-se os milharais
em tarde morna de verão
Longe das tocheiras de bambu
enfileiradas ao pé da montanha
dançavam os frutos de cada relva esguia
Se corresse pelas estradas
de terra vermelha
não avistaria o abismo
deste asfalto que me transporta
A poltrona macia sentia
a ponte sobre o rio
mas não poderia ver
a beleza de suas águas
Inútil seria imaginá-la
a contemplar os peixes
e o lavar dos pássaros
Tudo passa e se renova
restando apenas uma imagem
no arquivo da memória
Resta-me cerrar os olhos
e seguir viagem


CORPO I (O INÍCIO)

O primeiro choro vem do lamento
De ter nascido e de ter que partir

O choque com a luz, louco tormento
Caíra do alto à matéria unir

Encontrara o mundo um tanto cinzento
O lixo dos tempos o fez poluir

Do seio materno o leite pardacento
Chegara a tempo de não engolir

Ainda teremos grandioso invento
Que seio mecânico o vai produzir

Viera morrer pelo nascimento
A tendência do corpo é sempre cair

Ficasse onde estava sem o intento
De mala pronta para o mundo vir

Salvaria a pele do poço lamacento
Em que nenhuma sujeira pretende sair

O ritual diário como sacramento
Indesejado intruso do pecado surgir

Mais que prazer fora sobrevento
Corpo sem dono, quem vai te remir?

O início tem a ignorância como lenimento
De nada saber e nada possuir

Correndo do medo, crescimento lento
Tomando pancadas quando não ouvir

A palavra do mundo caótico e violento
Faz do feto um monstro construir

Viera manso como vem o vento
Não é importante, é que tem que vir.


CORPO II (O MEIO)

Nas sinagogas cresce o alarido
Ecoam dores, lamúrias e renascer

As mãos atacadas ao coração ferido
Pela maldade oculta do prazer

Vidas cancerosas, destino decidido
Posse de tudo sem nada ter

Um beijo, um abraço, carinho falido
Mecânica morta, gastando sem ter

Botecos, esquinas e amigo carcomido
Pela ferrugem no ideal de entorpecer

Amantes da carne, como tem ido?
Seu preço no mercado acabou de descer

Membro nutrido, cadáver vestido
De púrpura ungido antes de morrer

Dado aos bailes e cabelo comprido
Homem perdido em seu conhecer

Andando em companhia de anjo caído
Mulheres peladas vestem-se de prazer

Nas noites alcoólicas e sem sentido
Abraço do pecado sem se conter

Saem gargalhadas de um pulmão ferido
Faz a fumaça, o tédio crescer

Em cada mesa um alegre deprimido
Fazendo do corpo, amargo meio de ascender

O vidro reflete o povo combalido
Dançando e cantando até o amanhecer

Atrás do batom mora um lábio aturdido
Querendo um choro mais que enlouquecer

Atrás de toda fantasia tem sofrido
Um corpo sedento por se desprender


O CORPO III (O FIM)

Imóvel músculo na brandura
Isento do poder de andar

Existe agora a visão escura
De nada ver, nada encontrar

Tarde será quando vier a cura
Inútil é querer ressuscitar

Se era incrédulo não há procura
Espera o tempo, o desintegrar

Se era místico, pobre criatura
Almeja ter o céu como lar

Secou-se o líquido fervente da aventura
Mesmo ao sol se põe a gelar

Não move a língua, não tem bravura
Tem silêncio de amedrontar

Galga liberto a maior altura
Atrás de esteio, firme segurar

Apesar de forte, dorme a estatura
Um sono infinito, finito ar

Não sonha assim com mente escura
É necessário o espírito falar

Dia último a vida fura
Dia de revolta e tudo parar

Destino certo, espera-o a sepultura
Corpo inerte, passa sem nada deixar

Leva nos dedos manancial de cultura
No coração mais que só amar

Imagem gélida, limpa e pura
De louca não quer mais acordar

Corpo pobre que almeja alvura
Quantos ainda vão te adorar?


IMAGEM

Ó musa das musas,
senti teu perfume no silêncio da noite
Vieste em sonho e encantaste minhalma
Ergueste meu corpo estirado no leito
Teus braços finos e pendentes no
meu pescoço curvado querendo o chão
Em chamas ardentes, meu peito em concha
abrigou teus seios nus
e meus lábios inertes ansiavam o hálito
quente de um único suspiro
Teu sorriso branco e suave a
procurar-me nas trevas
Fugiste de mim deixando um rastro
de flores pelo caminho
Não poderia segui-la estando preso
aos limites de meu sonho
Tenho saudades deste teu brilho
nos olhos e os cabelos longos
Estavas reluzente e bela ao fogo das estrelas
Mesmo que abraces e caminhe
ao lado de minha alma,
tua luz não me será digna
Mesmo que irradies paz e amor universal,
meus dedos estarão em tua cintura,
Mas, minha alma caminhará à sua frente
ainda olhando para trás e blasfemando contra
nossa dualidade e contradição
Porém, aplaude nosso abraço e nosso choro
ecoando na escuridão
E acende a luz do quarto.


PREÇO DA SALVAÇÃO

Os sinos acionados pela corda
doentia dos crentes cegos
De mãos dadas, o povo invadia as ruas floridas
Cálices em serragem colorida
Rosários e coroa de flores
na garganta das crianças
Já dormem os santinhos nas mãos do monstro
que os levam para a forca
Nenhum vento ousaria apagar as velas
acendidas pela ignorância da escravidão
Na escuridão dos pensamentos roubados e impróprios
Era o único brilho de esperança de vida eterna
O infindável ritual das noites cantadas pelas
mulheres insatisfeitas e homens assustados
O medo da morte pairava em cada célula que pulsava
Aquele era o único refúgio; o único abrigo
O único e último caminho para a salvação
Todos ruminavam os folhetos decorados
e ainda vomitavam o líquido amarelado que seus
podres e famintos estômagos fabricavam
Apesar de decrépitos e escaveirados, carregavam
sobre os ombros um homem crucificado
Acreditavam naquelas mãos feridas e nunca
mais amassariam o pão
Nem ergueriam um tijolo para construir
o teto de seus filhos
O eco de suas palavras ainda estavam em meus ouvidos
Por isso não conseguem ouvir o choro dos pequeninos
Engolidos pela fome e enrijecidos pelo frio
À porta do templo depositavam o preço da fé
E ainda beijavam as gravatas douradas
dos donos da verdade
Os grandes sábios insanos domando as feras
que esqueceram quem são.
Não enxergam mais as garras definhadas
por falta de uso
Pela estrada, vão deixando as penas
de suas asas leprosas
E, a cada manhã, reúnem-se na praça
para juntos e em cantos de alegria
quebrarem seus espelhos.


DONO DO ACONTECER

Atrás da noite fria esconde o escuro
E nele vela o dono do acontecer
De olhos abertos e de coração duro
Come fantasmas para não morrer

Sustenta à direita o fruto maduro
À esquerda os miolos do saber
Veste velha, tudo velho, corpo impuro
Início do homem que não quer viver

Atormentado anda rastejando pelo muro
Separando o manancial positivo do saber
Sangrando a face velha e peito imaturo

Perdeu a medalha, troféu e tudo inseguro
Marreta em punho, a derrubada do muro
Anda maluco o dono do acontecer
(pois nele vela o dono do acontecer)


ALÇAPÃO

O passarinho
que canta sozinho
pelos fios da cidade
não repara na maldade
do alçapão

Deixa tudo
em seu caminho
vai haver com seu destino
cai na isca do menino
de ingênuo coração

Não canta
mais de um piozinho
de dor e tristeza tanta
que a asa se alevanta
a cada lamentação

E o menino
fez-lhe um ninho
deu-lhe tudo de comer
mas não podia entender
tamanha insatisfação

Um dia
bem de mansinho
alguém abriu o alçapão
e o pássaro voou sem direção
alegre a desaparecer

O menino
na falta do passarinho
ao vento lançou a comida
E vendo-se sem saída
Chorou amargamente


SUCESSÃO

Do tempo frio o negro anela a tarde
Engolindo na montanha adeus do sol pra noite
Chega abraçando a alvura do chão que arde
Lambendo o brilho da areia em feroz açoite

O cavaleiro da lua desce à terra à noite
Espada em punho e face rubra de açoite
O caça-fantasmas, espíritos vagando tarde
Luta com sombras, vultos, ventos, sempre arde

Louco dos dias longos permanece o estatuto
Em que sóis duram eternidade e noites momento
Em que máscaras são esquecidas em coração astuto

A impiedade das horas droga o ancião astuto
Sentindo enganosamente visão errônea do momento
Enternece e aborrece com a vida e queima o estatuto

TEATRAL

O pano cai e a nudez do
homem morto transpira os vômitos
ao ranger dos dentes da pia
O corpo escaveirado e o
mongolismo em cada fio
de cabelo
A negritude de aura
Seu espelho é transparente
reflete o nada atrás de nada
Palmas... palmas... palmas!
O homem está no palco
Palmas platéia!
Não se cansa de representar
a personagem
O fogo da consciência não consegue
queimar suas lágrimas
Não há verdade no palco
O pano cai
O homem cai
E platéia delirante
Aplaude fervorosamente.


ANIMAL

Eu queria que a vida morresse
que a morte vivesse
como bala no peito
feito homem que canta
feito homem que chora
grita o deus dos botecos:
- Animal!

Era o erro, era o riso
pela virgem imaculada
caminhando alienada
horrorizando a moçada
com o terço na lama:
- Animal!

Canto o pai fortificante
a moça arrogante
o céu azul pirante
a juventude cega e ignorante
e adiante vejo tudo:
- Animal!

Nada se completa
sem a pata de alguém
Todo homem é novo
e nunca tem ninguém
O inverso da palavra
é tão forte que se tem
sentido verdadeiro da intenção


CARROSSEL

Cara cansada caída no chão
Cuspida ao cunhete, comprido caixão
Campos caiados com sangue de cruz
Coléricos cadetes cingidos por luz
Cada caminho cortado caiu
Escada celeste celebra seu fim
Camas cobertas na cacunda do caçador
Matando o casal carcomido de amor
Campos minados colados em carrossel
Cabeças coloridas; caras comidas cogumeladas
Canhão, carcaça, comungam sujos cabeludos.


JUVENTUDE UTÓPICA

- I -

Ouvi o primeiro fôlego da juventude utópica ataviada
Aos muitos desígnios sublimes dos espíritos relutantes
Em conceder frutos carnais para a ânsia dos amantes
E serem consumidos pelos deuses desta vida malvada

Fôlego, sem coragem, de medrosos pulmões e alma cansada
De estar espreguiçante e indiferente em roda de falantes
A retina, ainda cega, transformando as visões que antes
Contemplavam as colunas etéreas da placenta encantada

Sua pele, ainda vermelha, não tomara a cor do mundo
Onde são muitos os camaleões colorindo a falsidade
Necessária à decadência oculta de um amor profundo

Nem sonha que atrás das paredes existe uma cidade
Destruindo os valores ante as máscaras da verdade
Para a recém-nascida, a verdade não está no mundo

- II -

Entre brinquedos e tapas doídos sua infância caminhava
Às vezes, quase todas, silente a interrogar-se em tudo
Que as altas e nervosas pernas vestidas em corpo mudo
Arrastavam tanto e de tanto escutar, sua língua falava

Falava mamãe, papai, titio e seu choro a todos encantava
Foi feliz enquanto em liberdade para tagarelar de tudo
Ignorando informações como grade que a mantinha escrava
E sem compreender o destino opressivo de um sexo peludo

Não tendo conhecido as preocupações, o dia inteiro brincava
Com heróis imaginários e amigos verdadeiros que encontrava
Que por mais invejosos não ousavam roubar-lhe o brinquedo

Cansada de crianças, abandonou-as demasiado cedo
Procurando por aventuras adultas com as quais sonhava
Serem da existência, busca incessante, o maior segredo

- III -

A juventude incrédula conheceu o super-homem a que ansiava
Mais que a pobreza em se conter alheia à riqueza mendiga
Era crescer em morada terrena onde ninguém e nada falava
De algum poder maior e presente do que uma benção antiga

Dos livros, tratados e questionamentos foi fervorosa amiga
Do Novo Testamento aos precipícios de Nietzsche procurava
Um conforto interno e a paz falsificada de uma cantiga
Falando de belezas e amores enquanto o mundo acabava

Rompeu com a família tendo um coração tão duro
Que ao gesto materno dando-lhe mostra de amor puro
Cuspia no prato dizendo ser a comida sólida ilusão

O homem é a chave perdida de seu próprio cadeado!
Cantava pelos dias com seu sarcástico modo ensimesmado
E passava as melhores noites com o cérebro em erupção

- IV -

Nas ruas, a agressividade vestia-se de roupas coloridas
Camuflando os inquietos canhões entre flores estampadas
Com perfume alucinante atrás de grandes orelhas doídas
E torcidas pelos dedos sujos de autoridades enganadas

A juventude utópica era nula concorrente das caras cansadas
Ostentando placas obscenas e bandeiras de ideologia caídas
Idolatrando homens comuns e mortos por épocas passadas
Pela mesma arma do combate em suas revoluções falidas

Desejava destruir os edifícios altivos e viver entre ruínas
Comendo ratos e divulgando, ao léu, suas idéias aquilinas
Até que se lamente, passada a euforia, pela cama macia

E agora, onde estará o tão sonhado mundo melhor?
Talvez a resignação escrava não poderia ser pior
Do que esta grupal irresponsabilidade e união vazia

- V -

No suor das passeatas cantarolava a mocidade embriagada
Batendo, sem ritmo, os instrumentos pesados soam profundos
Descontentamentos pelo infortúnio a criar pacíficos mundos
Onde amor e paz, estas antigas e mortas palavras do nada

Ferem os lábios azedos no conflito da insânia calada
Trancando no peito desnudo, indomáveis discursos moribundos
Que falam de pacificadores derrotados, do mal oriundos
Vestidos de santos faladores com gesto e oratória encantada

Os destruidores de templos a defender meta imprecisa
Perdidos entre as ruínas, nenhuma construção realiza
Mocidade independente afeita a inconseqüente malfazejo

Erguem os cartazes inúteis e rastejam nas ruas cantando
Vomitam pelos banheiros públicos com a alma chorando
Paz e amor, estas palavras, inevitável e errôneo desejo

- VI -

Das mocinhas soltas e arregaladas a mocidade foi amiga
Amando-as como irmãs tristonhas e petrificado coração
Deu-lhes o carinho dos pais entoando-lhes doce cantiga
Versando sobre doces palavras limpas e beijando-lhes a mão

Seu leito, antes um templo, transformou-se em rude prisão
Onde os seios, altivos comandantes, armando grade antiga
Enferrujavam-se e caíam sobre as garras de qualquer mão
Que alisava as pernas populares numa fidelidade inimiga

Noites dionisíacas arquitetava sua alma muito contente
A perfumar os lençóis e dobras eróticas tão consciente
Do grande vazio ulcerado e prazeres mortos pela manhã

Nada, dentre todos os conflitos, traz euforia vã
Para a felicidade inteira de toda a juventude sã
Do que lutar na cama por um motivo inconseqüente

- VII -

Sobre os maus filhos da droga nada tenho a declarar
A não ser neurônios inocentes em impiedoso assassinato
A bestialidade do jovem babando e andando como um rato
Sobre os lixos da cidade com as narinas a sangrar

Muitas famílias destruídas, crianças e mulheres a chorar
Por tormentos incontáveis; veneno constante de um só ato
Que de uma agulha, ou um trago, ou um simples inspirar
Fez sucumbir deste mundo o mais sublime e vero retrato

Um corpo, inimigo do espírito, não consegue mais andar
Como cidadão das construções divinas sem se contemplar
Em face ao mal encarnado oprimindo o coração

Maior desprezo e solidão por muito não pode suportar
Quero não falar que um satanás entorpece a razão
Sobre os maus filhos da droga nada tenho a declarar

- VIII -

Tu és o meu esconderijo; tu me preservas da tribulação...
Soubesse a juventude encher de belezas o entendimento
Não seria um cair constante a sina de seu coração
Imaturo contra os dardos intermitentes do crescimento

Cessaria toda angústia e morreria o desejo do lamento
Pelas inutilidades mundanas e ociosidade suja da paixão
Não regaria a árvore que esculpirá seu próprio caixão
Para deitar a massa sangrenta ao último sofrimento

Nem mendigaria fartando na mesa um precioso pão
Vindo dos céus para cobrir a fome do ferimento
Que a fé causou-lhe ante o infortúnio da separação

Deus é palavra difícil a que a boca sem alimento
Rumina como último recurso pela necessária salvação
... e me cercas de alegres cantos de livramento.

- IX -

Viver nesse oco mundo e estar em vida predestinado
A decompor-me entre vermes carnívoros finda a loucura
De correr sem direção por um objetivo tão ignorado
Quanto o de ser grande e belo em criação futura

A morte me faz assim com um pequeno coração afiado
Contemplando, eterno instante, néctar de doce amargura
Antes não tivesse nos prazeres e pândegas confiado
Como lenitivo para acalmar minha inquieta bravura

Caminho ansioso a sobraçar os ferimentos da agonia
Que sangram constantemente pelos ataques de melancolia
Cobrindo meus dias de estrelas e negrume lastimável

Todas as ataduras mundanas não estancariam a hemorragia
Desta divina ferida que o tempo ofertou-me um dia
Para que seja somente humano e nunca louvável

- X -

Procuro belos símbolos para adornar a visão ferina
Da cena mortuária que a juventude utópica cria
Em cada erro de caminho e direções a alma fria
Titubeando faminta e pobre entre as jóias da mina

Todo tempo perdido à porta da imaginação vazia
Mendigando o pão venenoso da caridade sovina
Não engorda sem o conflito atacando a apostasia
Nos tempos de conflito sendo popular peregrina

Pensamento positivo, orações, mente sã, fim do mundo
A morte continua mastigando o ideal vagabundo
E as luzes ainda temem o império da escuridão

Que grande verdade obscura existe em um segundo?
Que mão irresoluta orienta seu secular coração?
Ah, juventude utópica, enterro-te nas ruínas do mundo.




- Digitado por ROSANA GOMES OLIVEIRA
- Revisado por MARCELO ANTONIO ROCHA

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